Tudo aconteceu num tempo - nem antigo nem moderno - quando o amor ainda era tema de todas as histórias.
Nessa época, uma florista bem moça perfumava a vila inteira com suas rosas, lírios e brincos-de-princesa (quase posso sentir … como é grande o poder da lembrança).
A florista subia as ladeiras escondida entre o cheiro das flores que ela mesmo plantava e colhia no quintal. O lugar não era grande, mas cada canto tinha tantas cores e fragrâncias que mais parecia um planeta-delicadeza.
Era uma jovem bonita, feliz e gentil, mas que tinha uma fraqueza: não sabia dizer não. Ah sim, claro… muita gente se aproveitava dela. Mesmo sem ter dinheiro, muitos lhe pediam as flores. E ela, a florista, sempre entregava… Sempre em troca de um sorriso.
Na descida da ladeira, a Florista viu um rapaz e - exatamente nessa hora – suas flores exalaram um cheiro tão forte que quase a fez cair tonta no chão. Recuperada do súbido, voltou a vê-lo. Baixou a cabeça. Ergueu-a de novo. Andou um pouco. Parou. Olhou para traz e se deu conta de que estava amando.
Pelas pontas dos pés descalços ela o seguiu. Descobriu sua casa e, todas as manhãs ainda escuras, voltava lá para florir a porta com suas melhores flores: as mais frescas, as mais bonitas, as mais cheirosas e as mais apaixonadas.
Dia após dia. Todos os dias.
Quando ela voltava na madrugada seguinte, as flores do dia passado já tinham sido recolhidas. E ela enchia tudo de novo de flores. Todos os dias.
Até que um dia ela voltou e ainda haviam flores por lá. Mesmo assim, ela floriu. E floriu todos os dias até que a rua inteira ficasse coberta de flores. Todos os dias.
Quando viu que ele se foi, tentou manter o sorriso. Mas o maço de flores que carregava murchou em seus braços. Desde esse dia, seu quintal viveu um inverno. Seco. Frio. Escuro. E a cidade inteira mudou; o perfume de petala adocicada, caule molhado e folha fresca se transformou em cheiro de gente com pressa, dinheiro amassado e romance rompido.
Mas o ciclo da vida sempre continua e ela voltou a sorrir. Escolheu as sementes mais ricas e plantou, uma-a-uma, na terra fértil do amanhã. As flores nasceram e ficaram prontas para seguir seu destino de embelezar as casas da cidade.
Num dia de muito azul e branco no céu, ela seguiu farta de flores. Vendeu quase todas: com algumas ganhou dinheiro, com muitas outras, sorrisos. No fim da tarde, só lhe restava uma flor: um único botão de rosa amarela.
“Esta eu não vendo! Nem por todo o dinheiro do mundo, nem pelo mais belo sorriso”. E foi com a rosa para a casa, companheira agradável no caminho de volta. Aquela flor ela deu para si. Um carinho que cansou de esperar de alguém…
E foi nesse dia, quando aprendeu a dizer não, que - de longe - ela avistou um um homem alinhado no portão da sua casa. Sereno, camisa verde clara, chapéu de feltro branco… Se aproximou, cuidadosa, com medo de ouvir o que temia: “Boas tardes, senhorita florista… Vim para comprar esta flor”. Disse isso e abriu um sorriso tão lindo que a fez esquecer sua promessa. Sem demorar um segundo, ela lhe entregou.
Depois, com um pouco mais de demora, no momento seguinte ao de ver por dentro dos olhos dela, o homem lhe devolveu o botão. Foi incrível ver como ele se abriu durante a viagem entre as mãos… um percurso que durou a eternidade.
Ela reconheceu o cheiro dele. O sorriso. O cheiro era dele… ele estava de volta.
E isso foi tudo o que eu vi: o lindo fim de uma história em continuação.
Um momento tão sincero que me fez viver feliz para sempre.